corria os dedos na teclas de marfim num mar de brancos e pretos com a propriedade de um cachorro velho andando pelas ruas. Fazia voar as notas e o garoto em seu encalço lhe mostrando os próximos passos. E quando ele corria mais que o garoto pudia acompanhar com os olhos, a partitura era surrada com golpes numa pausa de semibreve.
O aprendiz inquieto na cadeira, incerto do que o francês iria fazer, tenta enxugar o suor frio da testa. O francês sentado parece também querer voar junto com as notas que liberta do piano ao ar. Ele tenta marcar o tempo com gestos de maestro, desconcentrado pelo atrapalho do garoto.
E a luta se acirra quando a partitura é disputada entre os dois e pula de mãos algumas vezes até achar seu lugar, muito mal acomodada, no piano. E cada nota saída do instrumento soa à tensão, soa corrida, soa suada.
Até que as cordas se aquietam. No fim a tensão ressoada por essas cordas, agora inertes e impessoais, se tornou parte do que é cada um dos que as ouviram.
o princípio do meio do fim
5 years ago
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