Sunday, December 13, 2009

5 dias

No meio da calçada, perdido no imenso do litoral, um pequeno corredor de paredes de cerca viva se fazia de entrada. Encontrava-se espremida entre dois grandes prédio e, a pesar de simples parecia aconchegante. No entanto o corredor, de alguns poucos metros, parecia te transportar para outro mundo.

O saguão era quente e abafado, todo ele com um ar de velho. A iluminação lhe dava um tom sombrio e os ventiladores preguiçosos não davam conta do pé direito duplo. Aqueles móveis pareciam não ter visto qualquer movimento há muito tempo, que não fosse o efeito que fazia as pás do ventilador cortando os feixes de luz. A sala tinha um formato estranho e sua parede dos fundoes parecia acabar antes do esperado. O cheiro de maresia vindo de fora parecia ser a única coisa que não lhe deixava perder contato com a realidade.

Um atendende negro, gordinho de cabelo raspado se anuncia atrás do balcão. Estava vestindo o uniforme do hotel: uma camisa social de manga curta de amarelo que não se sabia se estava desbotado de velho ou se era sua cor original. Tinha um jeito atrapalhado e gestos sincopassados. Era excessivamente educado e seu buço húmido de pequenas gotículas fazia pensar que estava fazendo um esforço tremendo para escolher as palavras, lembrar do título de senhor e se mexe pela bancada de fichas de papeis e chaves.

O elevador parecia um aposento, seu painel paceria ter sido arranjado na parede de modo precário e não parecia lhe pertencer. Era barulhento, um barulho cansado mas apressado. Suas luzes eram quase ofuscantes e vários números de andares não ascendiam no seu sobe e desce. Nunca falhou, nem nunca abriu as portas sem que estivesse totalmente alinhado com o andar que seu cliente apertasse.

O corredor de acesso aos quartos era em forma de ferradura, com um vão no meio de onde era possível ver através de todos os sete andes a baixo. O fundo não parecia dar em nenhum lugar identificável do saguão de entrada. Olhando para cima era possível ver uma claraboia fosca de anos de sol e chuva. Não havia sinais de vida em qualquer outro andar, escurecidos por causa do mecanismo de sensor de movimento para acendimento das luzes. Eram quatro quartos por andar.

Meu quarto era o segundo a esquerda. Duas voltas de chave revelaram um quarto muito grande, aumentado pela escassez de mobília. A vista era para dentro: apenas lajes e outros prédios igualmente velhos. O aparelho de ar-condicionado era antigo, dos que há muito não se vê mais a venda. O disjuntor estava quebrado e era preciso tentar ligá-lo várias vezes até que fizesse uma raísca e o ronco do aparelho soasse. Seu ar era pouco mais que um sobro e tanto barulho não condizia com o frio que produzia. Abrindo o painel de ajustes era possível descobrir todos os botões arrancados (não que fossem funcionar se estivessem lá, quando não pela velhice, pela ferrugem) e teias de aranha. Ele não fazia nem frente aos metros quadrados do quarto.

O chão era de carpete e haviam várias manchas que nos faziam imaginar sua origem. E sua data. Havia interruptores que não pareciam fazer nada pelas paredes e o armário tinha várias portas. Não me atrevi a abri-lo. O banheiro tinha uma basculante que dava para o corredor dos quartos o que não era realmente um problema já que parecia o único hóspede do hotel. Seu chuveiro era sobre uma balheira de cerâmica e era posicionado de forma que a água batia em sua cabeceira quando ligado fraco ou quando era preciso se aproximar dele. Uma cortina evitava, o mais que possível, a água espirrar para fora.

Tuesday, November 24, 2009

I can't get no satisfaction

Só vou estar feliz quando tiver um jardim, horário de voltar pra casa e um livro escrito.

É o novo horizonte, e cá vou eu.

Wednesday, October 14, 2009

O francês

corria os dedos na teclas de marfim num mar de brancos e pretos com a propriedade de um cachorro velho andando pelas ruas. Fazia voar as notas e o garoto em seu encalço lhe mostrando os próximos passos. E quando ele corria mais que o garoto pudia acompanhar com os olhos, a partitura era surrada com golpes numa pausa de semibreve.

O aprendiz inquieto na cadeira, incerto do que o francês iria fazer, tenta enxugar o suor frio da testa. O francês sentado parece também querer voar junto com as notas que liberta do piano ao ar. Ele tenta marcar o tempo com gestos de maestro, desconcentrado pelo atrapalho do garoto.

E a luta se acirra quando a partitura é disputada entre os dois e pula de mãos algumas vezes até achar seu lugar, muito mal acomodada, no piano. E cada nota saída do instrumento soa à tensão, soa corrida, soa suada.

Até que as cordas se aquietam. No fim a tensão ressoada por essas cordas, agora inertes e impessoais, se tornou parte do que é cada um dos que as ouviram.

Saturday, October 10, 2009

Minha irmã ouvindo If She Wants Me em loop.. Parece que é de sacanagem ¬¬

Friday, September 25, 2009

Não devia

Belle & Sebatian me faz querer passar a noite acordado. Sentir a madrugada, o friozinho que vem e o mundo todo que parece ser meu. Meu, do cara andando sozinho pela rua de baixo e de uns parcos carros anunciados ao longe pelo som de pneu no asfalto. É tudo tão tranquilo e perpétuo. E eu desejo que seja perpétuo.

E quando o friozinho da manhã chegar, quando o sol começa a nascer e os pássaros começam a cantar tudo está tão certo e tão no seu lugar quanto poderia estar. É um felicidade-paz, um preenchimento que me ilumina e tudo que existe é bom. Ai então estou pronto para dormir. Dormir enquanto o mundo passa lá fora. Dormindo para só acordar à noite de novo, quando somos de novo só você e eu.